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Algo na fotografia implica em uma acentuada tendência de caráter obsessivo e/ou compulsivo na atualidade. A facilidade de colecionar imagens de tudo e de todos, principalmente com a fotografia digital, tornou muitos usuários obsessivos garimpeiros de particularidades do cotidiano. O aparelho fotográfico cristaliza essa tendência, pois a obsessão e a compulsão fazem parte de sua natureza técnica, de sua reprodutibilidade, principalmente hoje em dia, com sua quase infinita fonte de produção de imagens.
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No filme Cortina de fumaça (Smoke, EUA, 1995), dirigido por Wayne Wang, com roteiro de Paul Auster, Auggie Wren (Harvey Keitel) é dono de uma pequena tabacaria e, com um impulso de ato inconsciente, rouba uma câmera fotográfica de uma senhora cega, o que o leva a fotografar. Passa a ver a esquina de sua tabacaria como lugar do imponderável acontecimento das oito horas da manhã. Seus álbuns de fotografias do mesmo enquadramento, no mesmo horário, todo dia, são para ele descobrimentos diários na espacialidade particular de sua vivência urbana. O acaso fotográfico das oito horas da manhã faz um encontro com a tragédia urbana, quando a emoção da perda de um ser querido surge aos olhos de um amigo, Paul Benjamin (William Hurt), um escritor em crise, que percorre enfadonho as muitas imagens quase iguais; entretanto, as portas do imaginário são abertas quando vê sua amada ao caminho da morte naquele mesmo dia, pouco depois da oito horas da manhã. Todas as fotos do mesmo lugar, na mesma hora, no mesmo enquadramento, são distintas e marcam temporalidades inexoráveis.
Outro exemplo interessante é o lixo fotográfico da humanidade, o imaginário perdido. Se mesmo em fotografia familiar perdemos referências de nomes, lugares e datas, as fotografias descartadas, jogadas fora, são anônimas e fantasmas que um dia habitaram esse planeta. Em um site argentino, uma pessoa que não se identifica recolhe fotos que encontra nos lixos dos bairros da cidade de Buenos Aires e cria um espaço para visualizarmos essa procura pelo desconhecido retrato descartado por vários motivos. No site www.fotosencontradas.com.ar podemos encontrar os restos pessoais que habitaram algum ambiente familiar ou laboral, vivendo em terras portenhas. Alguns ainda têm nome em resíduos de documentos, dedicatórias, mas uma grande parte é anônima e assim vai ficar para sempre. O nome do garimpeiro de imagens abandonadas ou, como ele diz, “encontradas”, é Pablo Cruz Aguirre, mas seu nome não é fácil de ser identificado como o gestor do site e “encontrador” de fotografias; aparece como P. C. Aguirre em determinado ponto da página, tive de escrever para “contatos” para perguntar quem era o garimpeiro de imagens, e somos surpreendidos com uma foto de uma velha senhora, uma espécie de jogo de esconde-esconde.
O mais surpreendente de todos é um vídeo de Noah Kalina que já faz muito sucesso no Youtube, chama-se Noah takes a photo of himself everyday for 6 years:
Fernando Tacca
Cf.http://www.studium.iar.unicamp.br/27/03.html
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