segunda-feira, 8 de setembro de 2008

ficção de dispositivo

O sol....há de brilhar mais uma vez
A luz....há de chegar aos corações
Do mal....será queimada a semente

O amor...será eterno novamente
É o Juízo Final, a história do bem e do mal
Quero ter olhos pra ver, a maldade desaparecer

(Nelson Cavaquinho)


Linha de Passe está em cartaz desde 5 de setembro e já relançou um debate que tem sido freqüente no cinema brasileiro recente: como a ficção se inspira nos documentários?
Os irmãos Salles são um exemplo vivo e sonante desse trânsito. O doc Socorro Nobre, de Walter, inspirou o seu Central do Brasil. Notícias de uma Guerra Particular, de João, apontou caminhos para filmes como Cidade de Deus e Tropa de Elite. Mas é o próprio Walter quem reconhece que não basta a um filme inspirar-se num doc para ficar próximo do doc. Ele trocou e-mails com o blogueiro:
- Central do Brasil não tem linguagem documental, à exceção dos depoimentos do início do filme. Em Central, tudo era questão de precisão. O filme foi projetado numa espécie de cinema interior antes de ser filmado.
No caso de Linha de Passe, Walter tem frisado em entrevistas que ele e Daniela Thomas procuraram filmar na fronteira entre a fic e o doc. Mas o que isso exatamente quer dizer?
Houve, primeiro, a inspiração em dois docs de João: Futebol, co-dirigido por Arthur Fontes, que, entre outras coisas, descrevia a máquina de moer sonhos pela qual costumam passar os jovens aspirantes ao estrelato no futebol; e Santa Cruz, co-dirigido por Marcos Sá Corrêa, acompanhamento da criação de uma pequena igreja evangélica no subúrbio carioca. Futebol e religião são dois eixos importantes na construção dramática de Linha de Passe, muito ligados às questões da fraternidade e da busca do pai.
Na conversa com Walter, confirmei que também Motoboy – Vida Louca, de Caíto Ortiz, teve grande importância no processo.
- Gosto muito do documentário, a ponto de ter escrito um artigo para a Folha sobre o filme. Já tinha desenvolvido um personagem de motoboy num roteiro escrito dois anos antes de Linha de Passe, mas Motoboy – Vida Louca nos ajudou a entender o quão complexa era aquela realidade.
Para além das eventuais influências, existem diálogos possíveis, não intencionais, com docs (posteriores à concepção do projeto) como Em Trânsito, de Henri Gervaiseau, e mesmo 33, de Kiko Goifman, sobre a procura da mãe biológica.
Essas, contudo, são semelhanças temáticas, menos importantes para determinar o teor documental de um filme. Linha de Passe liga seu fio-terra em diversos acontecimentos reais da cidade de São Paulo. Entre eles, o menino que roubava ônibus e procurava seu pai entre os motoristas (já retratado no curta O Menino e o Bumba, de Patrícia Cornils), a onda de roubos com motocicletas, os incêndios de ônibus. Mas isso tampouco seria suficiente para caracterizar um trabalho de fronteira. O mais importante de tudo estava na linguagem, como explica Walter:
- Estar no limite entre ficção e documentário é estar aberto à idéia de que a narrativa deve ser constantemente transformada pelo imprevisível, pelos acidentes que só a realidade traz. Em outras palavras, é necessário que o roteiro original seja desestabilizado constantemente ao longo da filmagem. Foi o que buscamos em Linha de Passe. Como optamos por não ter figurantes no filme e sim pessoas que vinham realmente dos universos que estávamos retratando, éramos constantemente surpreendidos por coisas que não esperávamos. Para capturar aquilo que não estava no roteiro, era necessário trabalhar com equipamento leve, como num documentário. Essas novas cenas foram transformando pouco a pouco a matéria fílmica, de tal maneira que o filme final é muito diferente do filme que existia no papel.
Ele prossegue:
- A gramática cinematográfica foi na mesma direção: como a maioria dos atores estava fazendo seu primeiro filme, procuramos não marcar as cenas como faríamos com atores profissionais. Ao contrário, a câmera tenta acompanhar os movimentos de personagens que evoluem livremente em quadro. É por isso, aliás, que o foco chega algumas vezes atrasado – como num documentário. Por fim, gruas, steadicams ou outras parafernálias eletrônicas não fazem parte dessa linguagem. Filmes que utilizam esses instrumentos ou o cinemascope podem dificilmente ser caracterizados como próximos do documentário...
O interessante, em Linha de Passe, é que as improvisações e recriações da filmagem soam tão orgânicas que parecem rigorosamente planejadas. O filme tem um roteiro muito bem amarrado, que evolui das histórias atomizadas dos quatro irmãos para uma crescente interpenetração, culminando com um belíssimo conjunto de clímax paralelos.
Talvez a semelhança mais curiosa com a linguagem documental esteja no uso de um procedimento formal fixo, coisa típica dos chamados “documentários de dispositivo” contemporâneos. A estrutura do filme inteiro obedece ao padrão das linhas de passe futebolísticas, aquela brincadeira coletiva em que cada jogador só pode dar um toque na bola, passando adiante a um companheiro. As seqüências são curtas, sem continuidade direta, passando de um a outro personagem como a bola da linha de passe.
Depois dos documentários, teremos agora a ficção de dispositivo?

Carlos Alberto Mattos

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