quarta-feira, 10 de setembro de 2008

espelho diário


Trecho da obra homônimoa de Rosângela Rennó, apresentada em duas telas perpendiculares.Edição: Fernanda Bastos

Em A Prosa do Mundo, Maurice Merleau-Ponty cogita que os indivíduos sejam capturados por seu nome pessoal. Rosângela Rennó tinha dificuldade em aceitar seu nome. A vídeo-instalação Espelho diário reúne as histórias de 133 “Rosângelas” que a artista recolheu em jornais e narra em fluxo delirante. Em comentário àqueles argumentos de Merleau-Ponty, Claude Lefort agrega que, antes da fase do espelho lacaniana, na qual a criança descobre sua unidade corporal, existe o encontro com o nome que determina o início de uma nova relação de alteridade. Rosângela Rennó constrói uma identificação pelo nome. Se o sujeito é feito por seu nome, Rennó argumenta que o sujeito moderno seja constituído pela informação por imagens e pelo sistema de comunicação, por isso o título Espelho diário remeter ao jornal britânico Daily Mirror, criado para o público feminino.

Se o pintor empresta seu corpo à pintura, como observou Merleau-Ponty, marcado por Valéry, Rennó empresta sua imagem ao vídeo para designar uma reversibilidade fenomenológica entre ela e suas homônimas. A fotografia captura o sujeito. Do Espelho diário ao nome, a mesma Rosângela é todas. “Elas era umas”, escreveu Alícia Duarte Penna. O jogo visual de Rennó se identifica com Rimbaud que escreve “Je est un autre”. As identidades não resistem ao caudal dos relatos e se dissolvem: uma é a outra da outra, numa rede de alteridades. Eu sou você - esta é a especularidade buscada, que aparentemente não estaria na fisionomia, mas no nome. Rennó acede à ordem simbólica pela linguagem visual, ultrapassando a relação especular eu/outro da instância do imaginário lacaniano– o outro fotográfico. Em posição instável no discurso, Rosângela ora é significante ora significado. Na fisionomia da narradora, o Espelho diário instaura a carne da fotografia.
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Paulo Herkenhoff

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